Scarlet Plum

Outubro 26, 2009

Livre arbítrio

Arquivado em: Uncategorized — Scarlet Plum @ 7:34 pm

Ele foi me buscar depois do trabalho, ainda estava em dúvida mas tinha certeza de que queria tentar, queria experimentar. Qual seria o gosto da traição sem ser a vítima e sim o criminoso? Era a primeira vez que fazia e tinha medo de não querer mais parar.

Antes de chegarmos ao seu apartamento paramos numa livraria. Talvez fosse um pedido de desculpas dele pela última vez que nos encontramos, eu disse que queria procurar uns livros primeiro depois iria encontra-lo, mas ele acha que o mundo gira ao seu redor e o fato dele ser dono de uma empresa o faz  se sentir manipulador das pessoas em todos os campos da sua vida. Eu cedi e fui encontra-lo, não porque me deixo manipular mas porque é divertido o jeito dele  de “comandar” as coisas.

Ele ficou o tempo todo finjindo que estava lendo as revistas sobre golfe e eu, me esccondi entre as prateleiras de livros de enfermagem, era um bom lugar para observa-lo torcer o pescoço a me procurar sem que percebesse.

Quando saíamos da livraria segurou a minha mão, sempre segurava a minha mão enquanto dirigia mas aquilo foi diferente, era como se fosse meu namorado. Só não foi melhor que dois dias atrás quando ele segurou minha cintura enquanto caminhávamos rumo a cafeteria.

Percebia ele desviando sua atenção do trânsito para me observar assistir a televisão no carro, acho que gosta de me ver concentrada. Embora procurasse não me atrapalhar sempre puxava algum assunto a cada farol vermelho, fosse sobre o programa ou sobre minha vida.

Meu coração começava palpitar mais forte quando desligou o carro. O apartamento ficava no segundo andar, um prédio pequeno e sem luxos externos mas por dentro era maravilhoso apesar da simplicidade. Já estive lá uma vez, como amiga. Ainda estaria lá como amiga mas sabia que não aguentaria por muito tempo. Dessa vez não fiquei no hall de entrada esperando ele me convidar para entrar, deixei minha bolsa num canto da sala e me acomodei no sofá ao lado dele. Acostumado com as pessoas a fazer tudo para ele impede-o de ser um bom anfitrião, mas reconheço que em todas as vezes que estivemos juntos ele se esforçou muito. Era engraçado como ele me observava comer os bolinhos de arroz, estranhou eu beber leite a noite e me olhava como se eu fosse de outro mundo. Nunca viu uma estrangeira comer?

Ressaltou que ele não vive naquele apartamento, por isso não tinha muita coisa para oferecer, nem mesmo toalhas de banhos. Ele tem um outro onde mora com a filha de dez anos e garante todas as vezes que é divorciado. Pode ser que seja verdade, creio que aquele seja o apartamento modelo da empresa dele, para quem trabalha com arquitetura e decoração é normal ter um apartamento todo mobiliado a mostra. Anormal seria levar visitas para passar a noite nele, percebi que era a primeira vez que recebia alguém ali para pernoitar e me aliviava saber que aquele não era o lugar para onde levaria suas putas.

Me arranjou duas toalhas de rosto, “esta para noite e esta para manhã” disse com uma meiguice que cada vez mais eu me decidia por entregar os pontos.

No quarto do banheiro eu me despia, já havia tirado a calça e me restava apenas uma camiseta comprida o suficiente para esconder meu sexo nú. A porta abria devagar e eu vi ele se aproximar, não resistiu. Suas mãos acariciavam meu rosto e seus lábios me imploravam um beijo, não resisti. Seus olhos me seduzem, seu sorriso me faz perder a noção do tempo, espaço e da realidade; seu odor me embriaga e seus lábios se encaixam perfeitamente nos meus. Do rosto as mãos percorriam meu pescoço, se perdiam nos meus seios e atolavam na minha cintura me fazendo sentir aquilo que não sentia há muito tempo, desejo. Insinuando que não queria que as coisas avançassem me afastei e ele voltou para sala. No chuveiro eu repensaria pelas últimas vezes meus conceitos sobre traição.

Ao sair dei-me conta de que esqueci a calcinha na bolsa, juro que não foi proposital. Me vesti da camiseta e escondi o traseiro com a mínima toalha de rosto e passei pela sala correndo, a cara de assustado dele era muito engraçada. Mais uma vez eu vi a porta vagarosamente ser aberta, ele entrou enquanto eu acabava de vestir a calcinha e se deitou na ampla cama de casal. Me adimirava como sempre quis ser adimirada; com ternura, com desejo, com curiosidade-me sentia uma obra de arte.

Ajeitou meu travesseiro, me cobriu e me abraçou sem malícias. me aconchegava nos seus braços e me presenteava com ternos beijos na testa. Sua voz era melodiosa na tentativa de me fazer dormir, mas a luz da cidade que invadia o quarto pelas entranhas das cortinas iluminavam nossos rostos, fazendo com que nossos olhares se encontrassem e hipinotizassem um ao outro. Apesar dos seus 39 anos seus beijos eram inexperientes, mas aos poucos deixou-se envolver pelos meus e pegou o jeito da “coisa”. Acho que japonês tem vergonha de expressar os desejos ou de causar desejo no outro pelos beijos.

E o desejo tomou conta, num segundo suas calças iam sendo dispensadas e eu senti seus pêlos roçarem minhas pernas. Meu sexo umedecia e o dele já tocava o meu, quando me dei conta ele já estava entre minhas pernas pronto para me invadir. Uma última dúvida bateu na porta do meu coração, me lembrei daquele que provavelmente estaria em casa preocupado comigo ou ocupado demais para pensar em mim, mas mesmo que eu parasse ali não teria mais volta, eu já havia traído, de corpo e alma. Decidi por me entregar, fizemos loucamente e finalmente cheguei no ápice do prazer.

Depois de tomar uma ducha me despedi dele, ele voltaria para casa porque deixou a filha dormindo sozinha. A cama era espaçosa demais só para mim, queria que ele tivesse comigo, a falta dele deu espaço para um arrependimento. Apesar de estar feliz eu chorava pela minha desonestidade, amante primária. Pela manhã a luz invadia as cortinas floridas e refletia no colchoado branco, tudo era muito arejado e me dava uma sensação de paz, era como se eu sempre tivesse morado ali. Havia deixado para mim pão e leite sobre a mesa, se preocupou em escrever o endereço todo traduzido pra eu chamar um táxi e me confiou as chaves do apartamento. Apesar de termos nos tornado apenas amantes, sentia uma fraternidade imensa fazendo com que todos os sentimentos de culpa e arrependimeto desaparecessem deixando no lugar, o perigoso gosto da liberdade…

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